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Maquininhas terão ‘Princípio das Dores’ com menor fricção do Pix no varejo



Por Arthur Rodrigues *


As notícias relacionadas a uma possível queda de valor de algumas das mais tradicionais marcas do segmento de adquirentes de cartões nos últimos meses foram imediatamente associadas à disseminação do Pix. Naturalmente, ao observar a forma como os pagamentos instantâneos caíram no gosto do consumidor brasileiro, muitos interpretaram os sinais vindos da B3 e de outros analistas de mercado como um reflexo imediato na potencialidade de negócios dessas empresas, apontando para um final melancólico para o que um dia foi chamado de “A Guerra das Maquininhas”.


Ocorre que uma análise feita por um ângulo mais cuidadoso para o tema pode revelar que as coisas ‘ainda’ não são bem assim. Basta atentar para os números divulgados recentemente pela Abecs (Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços) para entender que o Brasil possui uma cultura muito enraizada do uso de cartões. Este é um aspecto suficientemente relevante para assegurar que o Pix e os cartões ainda vão coexistir por muitos anos.


De acordo com a Associação, as compras realizadas por meio do sistema de cartões de crédito, débito e pré-pagos cresceram 33,1% no Brasil em 2021, somando R$ 2,6 trilhões. O resultado mostra que o setor, apesar do surgimento do Pix, vem mantendo um forte ritmo de crescimento, acima dos 30% ao ano. As projeções da entidade são de que a modalidade ultrapasse a cifra de R$ 3 trilhões em 2022, acumulando um montante que representará, segundo a ABECS, cerca de 60% do consumo das famílias brasileiras.


Então surge a pergunta:


-Se está tudo bem com o segmento de cartões, por que as ações das maquininhas têm enfrentado dificuldades na Bolsa?


Hoje, um dos fatores mais significativos para o abalo dos grandes players é o aumento da concorrência, já que novos entrantes estão chegando em grande número ao mercado, principalmente subadquirentes que trabalham bastante no e-commerce e vêm ganhando share relevante das adquirentes tradicionais.


Consequentemente, elas são obrigadas a reduzir suas margens de lucro e realizar movimentações de pessoal visando adaptar seus modelos de negócios a este novo cenário. Tudo isso, combinado, acaba gerando desconforto no ouvido dos investidores, que deixam de “apostar” nesses labels, tornando iminente a redução na valorização dessas ações.


Mas este ainda não é o pior cenário uma vez que a principal ameaça ao tradicional arranjo de cartões, o Pix, ainda nem sequer entrou para valer no campo onde este jogo será verdadeiramente disputado, o varejo. Neste tipo de operação o cartão ainda é absolutamente predominante na preferência do brasileiro, enquanto o PIX ainda só engatinha.


Uma das principais razões para isso é que pagar uma compra feita numa loja física com Pix hoje ainda é uma experiência com fricção para o consumidor. É necessária uma quantidade relativamente alta de “toques” e movimentos: tirar o celular do bolso, desbloquear o celular, abrir o aplicativo do banco, digitar a senha, entrar no setor do Pix, cadastrar a loja e assim por diante. Na prática são muitos cliques que tornam a opção pelo PIx onerosa quando comparada com o ato de sacar o cartão, inserir na maquininha, digitar a senha e encerrar o processo, algo que já está no sangue do brasileiro.


Essa momentânea “vantagem” de experiência na usabilidade dos plásticos em lojas físicas segue ainda sem uma grande solução, mas sabemos o quanto as empresas de tecnologia, fintechs e os estudiosos do assunto se dedicam na busca por soluções que aprimorem a experiência do usuário, em todos os aspectos.


Outra “ameaça” à utilização dos arranjos de cartões que ainda está “dormente”, é o PIX garantido. Atualmente, grande parcela das compras realizadas no varejo (principalmente online) são realizadas através dos cartões de crédito, principalmente pela possibilidade de parcelamento no pagamento e da alternativa de pagamento em data futura. O PIX garantido (com previsão de funcionamento no 1º semestre de 2022) será uma modalidade que permitirá o parcelamento das compras, entregando uma experiência muito próxima à utilização do cartão de crédito, sem a necessidade do plástico e de todo o arranjo de pagamento por trás das transações via cartões.


Quando essas ‘vantagens’ dos cartões sobre o PIx no varejo tiverem reduzidas, ou até eliminadas, aí sim terá chegado o “Princípio das Dores” não só para os adquirentes, mas também para todo o arranjo de pagamentos envolvido nas transações via cartões (bandeiras, emissores e outras fintechs). Isto acontecerá porque o Pix trará diversos benefícios de experiência e, principalmente de redução nos custos envolvidos nas operações de pagamento mais “tradicionais”.


O modelo atual praticado pelos adquirentes (e pelos demais componentes do setor de cartões) se mostra um tanto quanto desfavorável aos atores de seu ecossistema. Ele funciona através de um modelo comercial oneroso em termos de taxas transacionais e aluguéis de equipamentos e possui um alto custo de manutenção em hardware. O arranjo do Pix funciona em uma estrutura totalmente independente deste arranjo e vem ganhando novas funcionalidades a cada dia.


Diante de todas essas ameaças, a tradicional indústria de cartões precisará sim se movimentar para permanecer relevante e isto já está acontecendo. Bandeiras estão lançando soluções baseadas em criptomoedas, bancos se aproximam fortemente do ecossistema de inovação e adquirentes buscam adequar os seus modelos de negócio ao “novo usual”.


Mas isto tudo é assunto para outra hora.


Por enquanto, o recado é que, apesar de ainda não ter chegado, o “Princípio das Dores” para as maquininhas se aproxima rapidamente.


* Arthur Rodrigues é CFO e cofundador da Xsfera.

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